domingo, 5 de julho de 2026

Os escritores são os lobos-guarás das palavras

 A minha cabeça só silencia quando escrevo. Basta digitar a primeira letra e é silêncio completo, breu, não ouço nem o vento. Me coloco num abismo em mim mesma e começo a digitar sem saber muito pra onde vou e nem o que faço. A verdade é que tenho um desejo latente de ser menos desorganizada. Eu preciso de um fiel escudeiro na minha jornada. Eu preciso de um Engels e nessa analogia eu sou o Marx. Os escritores são os esquilos das palavras. Saem colecionando letras, guardado na boca mesmo sem fome, pois podem precisar mais tarde. Nota mental antes de continuar: eu amo a tecnologia em tudo e amo o advento internet, mas a imagética de papeis com coisas escritas, a caneta, o tinteiro, as mãos que tentam acompanhar o raciocínio na escrita… não sei descrever, mas é uma estética tão mais interessante do que “digitei e subi no drive”. Eu odeio datar meus textos e sinto que jogar um Google Drive no meio matou tudo e já nem quero continuar a digitar. Mas eu precisava registrar, isso é tão seco, tão feio, tão sem graça. Mas de fato, é isso. Tenho muita coisa escrita, jogada e embolada em gavetinhas no Drive, perdidos entre desabafos, listas de mercado, devaneios da pandemia e coisinhas que escrevi ainda adolescente. Acho bonitinho porque olho hoje como adulta, mas escrevi tudo seríssimo no auge dos dezesseis anos. O fato é, essas coisas estão todas misturadas, quero organizar, talvez me publicar e não me organizo. Fim da nota mental. Eu preciso organizar tudo o que tenho, separar o joio do trigo, ver o que pode ser interessante ou não e eu postergo algo que eu mesma quero. Sou injusta comigo mesma. Eu tenho vontade de fazer isso, de organizar, de compilar textos, de ver se de fato perdi aquele texto que procurei tanto para mostrar pra alguém e não acho em lugar nenhum. Mas… se eu estou aqui abrindo gavetas e pastas a procura de um texto, quer dizer que tenho tempo. Se tenho tempo… eu posso escrever. E entre escrever e organizar, entre escrever e limpar, entre escrever e me estressar… não é uma escolha muito difícil. E assim levo. Eu sou a causa dos meus problemas e sou minha própria solução. Rita Lee disse que se trancava no banheiro para compor. Aproveitava a sala de som que o banheiro produz e compunha, se ouvia, tentava, até entrar no… até que… até que essa correnteza de ideias tortuosas simplesmente se alinhem e se tornem um fluxo contínuo. Um estado mental dentro e fora de si, em que o tempo passa, ninguém vê e quando se percebe já aconteceu. Aí vem o segundo trabalho, o de pontuar, o de ver se faz sentido, o organizar. O ofício da escrita é esse. Os escritores são as formiguinhas das palavras, enfileirando as frases como se as guardássemos para tempos frios. Eu faço o mesmo, igual Rita. Que sonho. Mas não fico no banheiro, fico no quarto. E o fluxo vem da necessidade de explodir tudo o que guardo na minha cabeça para começar a organizar e empilhar. Os escritores são as abelhas das palavras, colocando cada uma em sua caixinha, formando uma casa que ao mesmo tempo que é casa, é alimento. Organizo as palavras e os pensamentos e agora posso começar a projetar uma ideia maior e… opa! meu tempo acabou, a vida me chama e não posso mais me gastar em linhas artificiais. Se me sobra o tempo de ponderar, eu fico tal qual Narciso encarando minhas próprias palavras. Decido se gosto ou desgosto ou não decido nada. É muito incerto e muito certeiro ao mesmo tempo. Independente do que se tem, se tem. Está ali, está feito. Houvesse possibilidade, haveria mais. Sempre há o que dizer, não me falta o que dizer. Os escritores são os bem-te-vis das palavras, anunciando aos céus suas ideias, colorindo o que é cinza, espalhando as palavras para que sejam semeadas.