domingo, 13 de setembro de 2026

O Bairro (2020)

Para meus pais, a imagem Perdizes-Pompeia é de um bairro tranquilo. Digo ambos e acho deveras complicado separá-los porque quem aqui vive sabe muito bem que ninguém sabe onde um termina e o outro começa. E ninguém nunca sabe onde mora, se mora em Perdizes, na Pompeia ou em micro bairros entre ou ao redor deles. Minha correspondência diz uma coisa, a placa diz outra e eu digo ainda uma terceira para as pessoas conseguirem me localizar. Busquei na Rua Diana uma tentativa de divisa, mas aqui nada é reto, a não ser que seja para cima. Nada é programado. Pois, para meus pais a visão dessa dicotomia de bairro é essa tranquilidade, essas casinhas operárias grudadinhas umas nas outras com padarias de esquina em que todos se conhecem, ladeiras de paralelepípedo e o Palmeiras que sempre será Palmeiras para quem o conheceu assim, na Rua Turiassú – ou Turiaçu, Turiasu, Turia... –, bem antes de ser o “Allianz”, o “palestra”, e comandar o trânsito ao redor.  Pois, nem entro nos méritos de meus avós que quando aqui chegaram, retirantes, tudo era mato. Tudo era tão mato que ninguém vinha pra cá. Quem quer morar no mato? Eu. A minha visão do bairro é empoeirada. Eu cresci em outro bairro, ainda que, geograficamente, tenha sido o mesmo de minha mãe. Pra mim, Perdizes-Pompeia é sujeira, é pó. Cinzas de casinhas operárias abrem espaço para varandas gourmet empilhadas, com direito a piscina e áreas mil, com valores a partir de um milhão de reais. Perdizes-Pompeia, no meu hoje, é um bairro de cães de marca e gente de raça - e todos adoram se gabar por ser mistura de Bertolini com Mascarenhas, de Corazza com Sanchez, etc -,  que já nasce com o nariz virado para a lua e tem tanta certeza de si que acredita até que a lixeira da rua, portanto pública, por estar em frente à sua casa, lhe pertence. Quem nasceu na Pompeia, cujos pais e avós aqui nasceram ou viveram a vida quase inteira, não consegue mais aqui estar. Muito antes de mim, quem aqui vivia, vivia porque trabalhava para os Matarazzo lá na casa das caldeiras ou porque chegou de outro estado e São Paulo não é sopa já faz tempo. Gente humilde que construiu casa com resto de telhas e suor, gente humilde que teve filhos que aqui cresceram já com um pouquinho mais de possibilidades. Esses filhos hoje têm filhos que não conseguem ter seus próprios filhos, não conseguem sair de casa e ir para a rua de baixo ou a outra porque na rua de baixo há um prédio, há um prédio na rua de baixo e esse prédio custa uma vida inteira nossa de trabalho. Minha adolescência e vida adulta se deram em ladeiras esburacadas, cheias de pó, caminhões de concreto e um estigma de bairro nobre, uma necessidade de atender a um status quo que eu nem sabia que existia até passar a encontrar gente de outros bairros. Os prédios que hoje existem, milimetricamente mal calculados, servem apenas para quem vem pra cá. Os que já estavam aqui há algumas décadas tentam acompanhar,vivendo em casa que mantém uma estrutura de anos 50 e gastando o que pode chegar até 2 ou 3 salários mínimos. Quem é do bairro já não pode ser do bairro. Quem fica no bairro ganha o falso status do bairro. Quem vem pro bairro, não entende o bairro.


Today we fast or shall I ever be able to think about you without crying?

 Today we fast. 

It's been a long road and you needed to rest.
You never really understood why I've stopped eating meat, 
or why I had cats and not babies. 
Never quite accepted why I didn't believe in god. 
But this is a small bitter pinch of nothing if you consider 
how much we got along and everything you taught me. 
You may rest, finally.
I will cherish you in every meal.
If you keep looking, it will never boil.
If you keep waiting here, it will never be frozen.
Let it go. 
But don't you forget.
I will.
Thank you.

Nós (2019)

 Não sinto falta de você, sinto falta de nós. Sinto falta da nossa risada que se entrelaça simultânea a nossos dedos e formam nós tão fundos que chegam a doer o peito. Suas piadas sem graça, seu jeito de perguntar sobre o que não entende, suas músicas barulhentas, nada disso me importa se singular. Longe do emaranhado do seu pensar eu já não leio, já não escrevo, não sinto. Sinto. Sinto falta dos nós, de como é fácil me perder em palavras a cada riso e cada mágoa que você lentamente me traz, uma a uma. Sua boca pouco me importa se longe da minha, desacompanhada das tuas mãos me revirando.

Aparece?

Sinto falta de te amar quando você me ama. Vem depressa meu bem, meu bem, meu bem, me desafogar de mim. Vem, com seu olhar de ressaca e sua voz quente, me chama. Aparece. Quero te ouvir gritar no meu ouvido quando grito no teu, quero suas marcas na minha pele enquanto cravo as minhas na tua. Quero nossos braços embaralhados, nossos olhos cansados dando voltas um no outro, até quase sufocar. Eu e você, ambos cheios de ódio e perdidos pelo mundo, nus como em Woodstock, fazendo um filho. Nosso. Nós.

Depois de você, só me acalmo no desespero. A todo tempo me desalinho, me perco, me indivíduo. Não suporto o caminhar solitário pelas paredes cinzentas da cidade. Sinto falta do meu amor pelo concreto e sua ânsia por quebrá-lo, caminhando juntos. O caos e a razão. A desordem e o juízo. Misturados, já confusos sobre quem é quem.

Nós.

Trançamos nossos corpos até que se mesclasse o livre ser, a unidade, duas almas opostas que um dia se tocaram, se mesclaram e dado momento pensaram ser uma. Ao pensarem ser singulares juntos, ao serem separados se acreditam metade. E agora já não sei ser sem que você seja. Não sei se você aprendeu a ser.

Vivo de assombrar essa cidade, de assustar pessoas penteadas, sempre atrasadas, vivo da luz do sol quando me alcança e de esperar a completude de ser. 

Ou seja, de esperar você aparecer.

você deve ser fácil de ser amada ou a dificuldade de te amar deve ser algo que valha a pena?

 Você me tira do eixo
Me deixa em órbita na minha própria cabeça 
O seu cheiro perfuma minha roupa 
O seu calor penetra minha pele
Seu toque marca minha carne
Eu luto contra tudo isso
Mas você sabe que sou fraca
Não busco você em nada
Não penso nunca em nós dois
Pois você já está em tudo
Não é preciso lembrar do que não sai da minha cabeça 
Suas mãos percorrendo meu corpo
Sua voz penetrando minha alma
Seu olhar me prendendo em silêncio 
Seu riso, tão raro
Se repetem 
Mas só meus olhos podem ver
Escrevo versos tortos

Vagos
Fracos
E você por bondade 
Por pena
Ou por carinho
Lê todos eles
Não me deixa saber nunca
Se sim ou se não 
E talvez eu não queira saber 
Prefiro viver nossa fantasia 
Prefiro ser a princesa no castelo te esperando 
Do que ter certeza de que você não vem
Mas também não posso ser a princesa 
Eu não sou tão delicada 
Então meu amor também não poderia ser
Essa minha curiosidade 
Virou desejo faz tempo 
Um desejo que me transborda e eu corro 
Tentando esconder, tentando guardar 
Mas o desejo ferve
Espuma
E se transforma 
Eu já não posso conter a transformação 
Já não posso negar, nem esconder
Que estou entregue em suas mãos 
E você finge não ver
Pra minha sorte
Ou não 
Não posso te pedir nada
Se também não sei o que quero
Me falta coragem?
Sabe...
A sua pergunta 
Aquela que você fez naquela noite
A sua pergunta 
Assombra meu peito: e se?
E se?
E se eu?
Se eu te pedisse?
E se?
E se você fosse?
E se?
Se eu quisesse 
Que você fosse
E se?
E se eu te dissesse que antes mesmo da pergunta acabar de ser feita, um sim explodia em todo meu corpo
Minha boca latejava
Mas minha garganta fechou
E se?
E se eu te dissesse que não dormi aquela noite
Pensando 
E se
Fosse verdade?
Será que você percebeu?
E se percebeu?
E se...
E se eu te disesse?
As cartas foram jogadas
Elas disseram que sim
Cisne, buquê, carta
Jardim, aliança, sol
Sol 
Sim
Sim
Sim
Eu não tenho coragem 
De falar em voz alta 
Que me permiti ser enfeitiçada 
Que me descuidei
Abri minhas portas
E agora sou prisioneira 
Das suas palavras 
Eu jamais te diria
O quão dilacerante é dizer adeus
E esperar 
Uma mensagem 
Na garrafa 
Em alto mar
Mas
E se eu te dissesse?
Eu tenho medo
De te convidar pra dançar
E você dizer
Que sou tolerável 
Mas não o suficiente 
Bonita
Mas não o suficiente 
Pra te tentar 
Mas não digo
Nunca direi
Que sei o que sinto e quanto sinto
Porque 
E se?

domingo, 9 de agosto de 2026

caminhos

 Caminho em silêncio nas encruzilhadas do meu peito. Ficar ensimesmada é lugar comum pra mim. Aproveito, se é que posso chamar de aproveitar, para me organizar por dentro. Caminho em silêncio. porque não sei ser diferente disso. Caminho sem caminho e uma frase ecoa em mim: "...no oculto do nosso sonho ousado, que me mostra como estar errado, talvez, seja a escolha certa." Por que você escolhe palavras tão certas? Outras palavras ressoam, lembranças me invadem, mas tudo passa. Essa frase persiste. Essa sensação impregna minha cabeça, me exigindo algo que eu não sei entender, e engole meu corpo como um rio caudaloso em que eu não deveria ter entrado, mas a curiosidade me impediu a cautela. E agora? Boio a esmo... Chega ao fim o que não teve começo. Mas, se acaba, por que não termina? Me pego pensando nessa brincadeira infantil de bem-me-quer-mal-me-quer que, sem pensar muito, fui brincando, arrancando as pétalas, sem me dar conta da possibilidade dos espinhos. Não estou machucada, mas sempre há tempo. Caminho sem caminho, sem rota e sem futuro e talvez isso não seja um problema. Eu, que sempre gostei de planejar, sempre caí pra comandar, sempre liderei sem liderar, me vejo sem grupo e sem guia, sem armadura e sem caminho. E me preocupo. Me preocupo por não me preocupar. Sabe, eu tenho muitos métodos, mas, quando escrevo, preciso do método sem métodos. Sem mentalizar, sem clair de lune, apesar da lune, sem ferramentas. Só um tremor, visão turva... E vomito na pauta como se tudo dependesse disso, como se todo sentimento fosse o último. Como se eu precisasse expurgar tudo de dentro de mim. E não paro. Até a última letra se desprender. E aí já posso respirar. É algo tão grosseiro, não? Mas eu sou grosseira. E se não for assim, não sou tão verdadeira. Sou fingidora. Esse enjoo nervoso me assombra, porque me faz pensar no que pode ser ou não ser. Ele me ludibria e puxa meu tapete. Preciso pensar menos, agir mais, mas pensar é a única coisa que me resta e, ao mesmo tempo o que começa a me atordoar. Já me sinto melhor, apesar de saber que ainda há possibilidade de mais alguma coisa sair de mim. Talvez o meu medo de caminhar sem mapas seja o que turva meu caminho, que poderia só ser apreciado em silêncio. Talvez, me deixar ser levada pelas águas desse rio, sem rota e sem rumo, não seja um problema, apesar do perigo. Afinal, quem quis entrar fui eu. Quem não sabe guardar as perguntas pra si, sou eu. E eu gostei desse mergulho no desconhecido. Só me lembrei, quando já era tarde, que tenho medo do desconhecido. E aí, sem plano, sem bagagem e sem mapa... já era tarde demais e eu já estava perdidamente perdida. Eu quero acabar com essa viagem. Eu quero acabar com essa viagem? Eu quero tomar mais decisões erradas-certas. Se pensar me atordoa, eu quero parar. Eu posso tentar.

De repente, pensar só no presente nunca foi tão simples.
Ciente.
Quero continuar.

domingo, 5 de julho de 2026

Os escritores são os lobos-guarás das palavras

 A minha cabeça só silencia quando escrevo. Basta digitar a primeira letra e é silêncio completo, breu, não ouço nem o vento. Me coloco num abismo em mim mesma e começo a digitar sem saber muito pra onde vou e nem o que faço. A verdade é que tenho um desejo latente de ser menos desorganizada. Eu preciso de um fiel escudeiro na minha jornada. Eu preciso de um Engels e nessa analogia eu sou o Marx. Os escritores são os esquilos das palavras. Saem colecionando letras, guardado na boca mesmo sem fome, pois podem precisar mais tarde. Nota mental antes de continuar: eu amo a tecnologia em tudo e amo o advento internet, mas a imagética de papeis com coisas escritas, a caneta, o tinteiro, as mãos que tentam acompanhar o raciocínio na escrita… não sei descrever, mas é uma estética tão mais interessante do que “digitei e subi no drive”. Eu odeio datar meus textos e sinto que jogar um Google Drive no meio matou tudo e já nem quero continuar a digitar. Mas eu precisava registrar, isso é tão seco, tão feio, tão sem graça. Mas de fato, é isso. Tenho muita coisa escrita, jogada e embolada em gavetinhas no Drive, perdidos entre desabafos, listas de mercado, devaneios da pandemia e coisinhas que escrevi ainda adolescente. Acho bonitinho porque olho hoje como adulta, mas escrevi tudo seríssimo no auge dos dezesseis anos. O fato é, essas coisas estão todas misturadas, quero organizar, talvez me publicar e não me organizo. Fim da nota mental. Eu preciso organizar tudo o que tenho, separar o joio do trigo, ver o que pode ser interessante ou não e eu postergo algo que eu mesma quero. Sou injusta comigo mesma. Eu tenho vontade de fazer isso, de organizar, de compilar textos, de ver se de fato perdi aquele texto que procurei tanto para mostrar pra alguém e não acho em lugar nenhum. Mas… se eu estou aqui abrindo gavetas e pastas a procura de um texto, quer dizer que tenho tempo. Se tenho tempo… eu posso escrever. E entre escrever e organizar, entre escrever e limpar, entre escrever e me estressar… não é uma escolha muito difícil. E assim levo. Eu sou a causa dos meus problemas e sou minha própria solução. Rita Lee disse que se trancava no banheiro para compor. Aproveitava a sala de som que o banheiro produz e compunha, se ouvia, tentava, até entrar no… até que… até que essa correnteza de ideias tortuosas simplesmente se alinhem e se tornem um fluxo contínuo. Um estado mental dentro e fora de si, em que o tempo passa, ninguém vê e quando se percebe já aconteceu. Aí vem o segundo trabalho, o de pontuar, o de ver se faz sentido, o organizar. O ofício da escrita é esse. Os escritores são as formiguinhas das palavras, enfileirando as frases como se as guardássemos para tempos frios. Eu faço o mesmo, igual Rita. Que sonho. Mas não fico no banheiro, fico no quarto. E o fluxo vem da necessidade de explodir tudo o que guardo na minha cabeça para começar a organizar e empilhar. Os escritores são as abelhas das palavras, colocando cada uma em sua caixinha, formando uma casa que ao mesmo tempo que é casa, é alimento. Organizo as palavras e os pensamentos e agora posso começar a projetar uma ideia maior e… opa! meu tempo acabou, a vida me chama e não posso mais me gastar em linhas artificiais. Se me sobra o tempo de ponderar, eu fico tal qual Narciso encarando minhas próprias palavras. Decido se gosto ou desgosto ou não decido nada. É muito incerto e muito certeiro ao mesmo tempo. Independente do que se tem, se tem. Está ali, está feito. Houvesse possibilidade, haveria mais. Sempre há o que dizer, não me falta o que dizer. Os escritores são os bem-te-vis das palavras, anunciando aos céus suas ideias, colorindo o que é cinza, espalhando as palavras para que sejam semeadas.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

luto é sentimento?

 o luto é um sentimento? é um estágio...? é uma sensação ardida. os olhos ardem mesmo sem lágrimas, aqueles mesmo ardor de passar horas e horas seguidas olhando pra uma tela. tipo quando éramos crianças  - e nos anos 90 estava liberado 7 horas de TV direto num sábado qualquer - os olhos ardiam. é essa sensação, mas ela vem acompanhada. vem junto de uma sensação de sentar em algum lugar pra beber uma água depois de muito esforço. uma sensação de nadar contra a corrente por horas e finalmente você consegue simplesmente parar seu corpo. e a pele arde, os olhos ardem e dentro da cabeça é nada. ou é tudo? é como se a cabeça se enchesse de espuma de almofada, daquelas antigas, meio esverdeada, dura. é como se sua mente estivesse entalada em você mesmo. e de tempos em tempos é preciso desabar. isso vai criando mais espaço, mais resistência e o tempo vai ficando mais esparso. como contrações ao contrário. o corpo fica lento, a voz fica fraca... e a vida segue mesmo assim. o coração bate um pouco pesado, acho que achata o estômago, por isso esse enjoô constante. isso explica muita coisa.