Para meus pais, a imagem Perdizes-Pompeia é de um bairro tranquilo. Digo ambos e acho deveras complicado separá-los porque quem aqui vive sabe muito bem que ninguém sabe onde um termina e o outro começa. E ninguém nunca sabe onde mora, se mora em Perdizes, na Pompeia ou em micro bairros entre ou ao redor deles. Minha correspondência diz uma coisa, a placa diz outra e eu digo ainda uma terceira para as pessoas conseguirem me localizar. Busquei na Rua Diana uma tentativa de divisa, mas aqui nada é reto, a não ser que seja para cima. Nada é programado. Pois, para meus pais a visão dessa dicotomia de bairro é essa tranquilidade, essas casinhas operárias grudadinhas umas nas outras com padarias de esquina em que todos se conhecem, ladeiras de paralelepípedo e o Palmeiras que sempre será Palmeiras para quem o conheceu assim, na Rua Turiassú – ou Turiaçu, Turiasu, Turia... –, bem antes de ser o “Allianz”, o “palestra”, e comandar o trânsito ao redor. Pois, nem entro nos méritos de meus avós que quando aqui chegaram, retirantes, tudo era mato. Tudo era tão mato que ninguém vinha pra cá. Quem quer morar no mato? Eu. A minha visão do bairro é empoeirada. Eu cresci em outro bairro, ainda que, geograficamente, tenha sido o mesmo de minha mãe. Pra mim, Perdizes-Pompeia é sujeira, é pó. Cinzas de casinhas operárias abrem espaço para varandas gourmet empilhadas, com direito a piscina e áreas mil, com valores a partir de um milhão de reais. Perdizes-Pompeia, no meu hoje, é um bairro de cães de marca e gente de raça - e todos adoram se gabar por ser mistura de Bertolini com Mascarenhas, de Corazza com Sanchez, etc -, que já nasce com o nariz virado para a lua e tem tanta certeza de si que acredita até que a lixeira da rua, portanto pública, por estar em frente à sua casa, lhe pertence. Quem nasceu na Pompeia, cujos pais e avós aqui nasceram ou viveram a vida quase inteira, não consegue mais aqui estar. Muito antes de mim, quem aqui vivia, vivia porque trabalhava para os Matarazzo lá na casa das caldeiras ou porque chegou de outro estado e São Paulo não é sopa já faz tempo. Gente humilde que construiu casa com resto de telhas e suor, gente humilde que teve filhos que aqui cresceram já com um pouquinho mais de possibilidades. Esses filhos hoje têm filhos que não conseguem ter seus próprios filhos, não conseguem sair de casa e ir para a rua de baixo ou a outra porque na rua de baixo há um prédio, há um prédio na rua de baixo e esse prédio custa uma vida inteira nossa de trabalho. Minha adolescência e vida adulta se deram em ladeiras esburacadas, cheias de pó, caminhões de concreto e um estigma de bairro nobre, uma necessidade de atender a um status quo que eu nem sabia que existia até passar a encontrar gente de outros bairros. Os prédios que hoje existem, milimetricamente mal calculados, servem apenas para quem vem pra cá. Os que já estavam aqui há algumas décadas tentam acompanhar,vivendo em casa que mantém uma estrutura de anos 50 e gastando o que pode chegar até 2 ou 3 salários mínimos. Quem é do bairro já não pode ser do bairro. Quem fica no bairro ganha o falso status do bairro. Quem vem pro bairro, não entende o bairro.
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