domingo, 13 de setembro de 2026

Nós (2019)

 Não sinto falta de você, sinto falta de nós. Sinto falta da nossa risada que se entrelaça simultânea a nossos dedos e formam nós tão fundos que chegam a doer o peito. Suas piadas sem graça, seu jeito de perguntar sobre o que não entende, suas músicas barulhentas, nada disso me importa se singular. Longe do emaranhado do seu pensar eu já não leio, já não escrevo, não sinto. Sinto. Sinto falta dos nós, de como é fácil me perder em palavras a cada riso e cada mágoa que você lentamente me traz, uma a uma. Sua boca pouco me importa se longe da minha, desacompanhada das tuas mãos me revirando.

Aparece?

Sinto falta de te amar quando você me ama. Vem depressa meu bem, meu bem, meu bem, me desafogar de mim. Vem, com seu olhar de ressaca e sua voz quente, me chama. Aparece. Quero te ouvir gritar no meu ouvido quando grito no teu, quero suas marcas na minha pele enquanto cravo as minhas na tua. Quero nossos braços embaralhados, nossos olhos cansados dando voltas um no outro, até quase sufocar. Eu e você, ambos cheios de ódio e perdidos pelo mundo, nus como em Woodstock, fazendo um filho. Nosso. Nós.

Depois de você, só me acalmo no desespero. A todo tempo me desalinho, me perco, me indivíduo. Não suporto o caminhar solitário pelas paredes cinzentas da cidade. Sinto falta do meu amor pelo concreto e sua ânsia por quebrá-lo, caminhando juntos. O caos e a razão. A desordem e o juízo. Misturados, já confusos sobre quem é quem.

Nós.

Trançamos nossos corpos até que se mesclasse o livre ser, a unidade, duas almas opostas que um dia se tocaram, se mesclaram e dado momento pensaram ser uma. Ao pensarem ser singulares juntos, ao serem separados se acreditam metade. E agora já não sei ser sem que você seja. Não sei se você aprendeu a ser.

Vivo de assombrar essa cidade, de assustar pessoas penteadas, sempre atrasadas, vivo da luz do sol quando me alcança e de esperar a completude de ser. 

Ou seja, de esperar você aparecer.

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