domingo, 23 de novembro de 2025

nada no anzol

 jogada a isca em um oceano vazio, nenhum peixe apareceu. como esperado. acho que já é seguro entrar na água. na verdade hoje eu não tenho muito a dizer, mas senti vontade de digitar qualquer coisa. estou pensando sobre meu processo de escrita. eu não consigo ficar pensando em uma ideia, bolando algo na cabeça e, depois de um tempo sair tudo bonitinho, enroladinho. na verdade eu penso que deveria escrever, e fico o dia todo com essa necessidade fixa na cabeça, como se fosse um programa rodando em stand by na cabeça. assim que me surge a primeira frase, eu preciso sair correndo e anotar e aí tudo simplesmente sai como se as palavras fossem vomitadas e saíssem na ordem correta. mas não tem como segurar a ânsia e vomitar parcelado. que comparação nojenta com o que mais gosto de fazer, só que a sensação é essa. talvez por isso seja difícil conceber a ideia de um livro. será que eu sentaria e escreveria 400 páginas em uma tarde? eu trabalho com revisão, mas será que aguentaria ver o meu trabalho revisado? eu realmente não sei... outra coisa, comecei a escrever tudo em caixa baixa, em minúsculas, depois de ouvir um podcast sobre a bell hooks. sim, depois eu li um livro dela. só um, os outros seguem embalados. não porquê não gostei, é só que eu costumo diversificar e estou em uma onda de ficção que está dando certo. na pandemia, eu acabei parando de ler. na verdade, antes de realmente achar que era algo sério, quando todo mundo ainda pensava que estavs ganhando 15 dias de férias do nada, eu li e li muito. eu "aproveitei" aqueles quinze dias, fiz marmitinhas pro trabalho, arrumei minha casa, dormi bastante... e no décimo sexto dia meio que... bateu. não tem graça. algumas pessoas morreram. veja, isso não foi quando já haviam 700 mil mortos, isso foi lá no comecinho. o carnaval foi semana passada praticamente. eu lembro de fazer uma atividade de St, Patrick's Day, limpar a sala, chegar em casa e nunca mais sair. por meses e meses e meses.

mas isso mudou e os dias super "aproveitados" viraram um cárcere, uma depressão, um esgotamento mental, viraram ódio, preocupação e outras coisas que eu não sei se sei nomear. em desalento. uma desistência. e eu parei de ler. parei de assistir. parei de responder mensagens. parei. não conseguia prestar atenção em nada, nem em um diálogo. me perdi de mim mesma. a pandemia abrandou, acabou e quatro anos e 5 infecções por COVID-19 depois, eu ainda não conseguia prestar atenção em nada. até cogitei TDAH, de repente com um diagnóstico eu não me sinto mal com essa... essa o quê? sequela? bom, não era TDAH, óbvio, porque não era nada, era estresse, era pandemia da desatenção e com terapia e um esforço mental absurdo eu consegui ler um livro em 6 - 7 meses. sim, a mesma pessoa que leu 10 livros naqueles 15 diazinhos de pandemia inicial. então hoje estou meio assim, meio deu vontade eu faço. deu vontade de livro tal, mas tem 20 livros aqui me esperando. meio que ninguém perguntou, né? então eu vou no livro tal da vontade. acho que isso também é um pouquinho de medo. medo de voltar pro estado mental de um ano atrás. de cinco anos atrás. aí, por isso não li outro livro da bell hooks. mas no podcast que eu ouvi, antes de ler tudo sobre o amor, a podcaster dizia que a bell (íntima) não usa letras maiúsculas, numa ideia de transgressão às normas, corpos não padronizados, amores não padronizados e textos não padronizados e eu meio que... amei? e aderi à bell e comprei o livro dela e gostei do que ela disse e comecei a escrever como a bell sempre que posso. mas recentemente li uma matéria falando sobre as pessoas estarem ignorando as letras maiúsculas por estarmos todos muito online o tempo todo e estamos escrevendo errado e... transgredindo as normas. e aí eu meio que parei de querer transgredir a norma e quero voltar. não sei, achei bem mundo invertido, do contra. legal. mas agora acostumei e preciso desacostumar. mas só deixando claro, eu comecei a fazer isso porque a bell hooks faz e eu quis fazer também, meio que numa forma de homenagear e também como se fosse um dog whistle do bem (?) sabe? eu não sei, eu só ouço o termo dog whistle para coisas ruins. por exemplo, uma pessoa adepta de ideias facistas tem certos códigos para que outras pessoas fãs de serem otárias se reconheçam. algumas são amplamente conhecidas, ou deveriam ser. como o copo de leite, o 88, o ok que parece WP ((white power)), enfim. a pessoa entende que não pode sair anunciando pro mundo as suas ideias nojentas e tortas, então ela demonstra seu amor pelo pintor alemão dessa forma. isso é um dog whistle, um apito de cachorro, eu não sei se temos uma expressão equivalente em português além de... sinais? nas entrelinhas? bom, o fato é que escrever tudo em minúsculas seriam um dog whistle do bem, por que? porque alguém que leu bell hooks pode me ler e pensar : uau, acho que ela lê bell hooks, talvez nossas ideias sejam parecidas, se complementem e podemos aprender uma com a outra. mas... agora sinto que isso não funciona mais. não que algum dia alguém tenha virado pra mim e dito: ei, senhora! aparentemente você anda lendo bell hooks, hein? mas... é meio que isso. meio que isso virou a forma internetzada de escrever e aqui estamos. acho que vou parar, porque, pensemos... se a norma era maiúscula e minúscula e eu não seguia pelo incômodo, agora que a maiúscula é ignorada, eu preciso retomá-la para seguir o incômodo. não sei de quem, mas um incômodo. é isso. acho que vou mudar o layout do blog de novo. e depois ler Caderno Proibido. esse livro é fantástico, estou com vontade de escrever sobre ele. e com uma preguiça monstruosa também. quem assistiu a série big mouth talvez me entenda. na primeira temporada a Jessie fica com a gatinha da depressão e essa gatinha roxa a impede de ser uma criança/adolescente normal e ela vive triste e dormindo. bom, a minha gatinha da depressão-estresse-burnout-medo fica me impedindo de escrever o que quero, ela me desmerece muito e diz que tudo o que eu gosto é inútil, chato e sem motivo. talvez eu ganhe e escreva. mas, se ela ganhar, não escrevo nada. o importante é que ela, hoje, não ganhou. 

ela não pode ganhar. estou na minha era Julie e Julia, Carrie Bradshaw aprendendo a escrever um e-mail. apesar de eu não ter 10 cm de cintura, me sinto muito Carrie com um texto que precisa ser entregue ainda hoje. I have a deadline, Big! Aliás, o que foi aquele filme e ela voltando com o Big... péssimo. enfim, that's all folks!

Nenhum comentário:

Postar um comentário